15 de abr. de 2016 - Por bruno
Foto: Cícero Oliveira
O rendimento acadêmico de alunos cotistas e não cotistas é semelhante na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), com uma pequena vantagem para quem entra pelo sistema de cotas. No processo seletivo de 2016, por exemplo, os cinco primeiros lugares foram conquistados por alunos cadastrados nas cotas. Entre eles, a jovem Stella Layse da Silva Lima, 18 anos, que ingressou no curso de Pedagogia do Campus Natal após estudar o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio na rede pública.
Para ela, as oportunidades são distintas entre os advindos da escola pública e privada, pois “quem possui maior renda tem mais estrutura para estudar e melhor preparação para disputar uma vaga na Universidade”. Stella Lima defende que as cotas não retiram o mérito da aprovação dos beneficiados, muito menos significam que eles terão desempenho inferior ao dos demais universitários. “Conheço muitos amigos cotistas que são extremamente esforçados na vida acadêmica, inclusive minha irmã, estudante de Psicologia na UFRN. Porém, a assistência aos estudantes menos favorecidos é essencial para a permanência na Instituição”, ressalta.
Método e resultados
A evidência foi revelada no levantamento realizado pela Comissão Própria de Avaliação (CPA) da UFRN, uma das primeiras instituições federais de ensino superior no Brasil a analisar desde outubro de 2015, o impacto da política de assistência estudantil na permanência e na eficiência acadêmica da Instituição. Atualmente, 70% dos estudantes da Universidade ingressaram na ampla concorrência e 30% são cotistas, conforme a CPA.
A pesquisa comparativa foi baseada no Índice de Eficiência Acadêmica (IEA), calculado a partir do aproveitamento do período letivo em fatores como carga horária (CH), aprovação, frequência e quantidade de disciplinas. Após coletados os índices de todos os estudantes entre os períodos 2014.1 e 2015.1, houve a divisão entre cotistas e ampla concorrência, posteriormente, subdivididos nos grupos com IEA abaixo de cinco (5), entre cinco e sete (5 E 7) e acima de sete (7).
Entre ingressantes pela ampla concorrência, 57,3% apresentam IEA inferior a cinco; 18,35% entre cinco e sete e 24,4% acima de sete. As porcentagens dos cotistas são de 56,9% abaixo de cinco, 17,9% entre cinco e sete e 25,3% acima de sete. “Verifica-se que, apesar de uma ligeira diferença favorável aos cotistas, não existe disparidade significativa de desempenho acadêmico entre os dois grupos”, esclarece Alexandre Queiroz, presidente da CPA.
O professor ressalta que outros estudos serão feitos até novembro deste ano pela Comissão de Avaliação da Política de Assistência Estudantil para obter um resultado mais detalhado dessa comparação, como por exemplo, a organização dos dados por curso de graduação e o cruzamento com as notas obtidas no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).
Histórico
Para equalizar o acesso às vagas de graduação, a UFRN desenvolve uma política de auxílio aos estudantes de escolas públicas desde o processo seletivo de 2006, ano em que se tornou a primeira federal a adotar o argumento de inclusão como benefício a esse grupo. O bônus era concedido de acordo com a porcentagem de alunos da rede pública que conseguiam ingressar pela ampla concorrência em cada curso: quanto menor o número, maior seria o argumento de inclusão.
Essa estratégia foi aplicada antes da Lei 12.711/2012, chamada “Lei de Cotas”, que tornou obrigatória para as instituições federais de ensino superior (IFES) a reserva de, no mínimo, 50% das suas vagas de graduação a quem cursou integralmente o ensino médio em escolas públicas. Dentro desse grupo, o Ministério da Educação (MEC) divide os alunos em quatro classes para somar os critérios de renda – familiar bruta per capita inferior ou igual a 1,5 salário mínimo – e etnia – autodeclarados pretos, pardos ou indígenas.
O sistema de cotas foi adotado pela UFRN em 2013, direcionando em 50% das suas vagas para o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e a outra metade preenchida via vestibular. Desde 2014, o ingresso nos cursos de graduação da UFRN ocorre via SiSU, com as vagas de cotas e ampla concorrência divididas em igual escala.
Impactos da assistência estudantil
Ao ingressar no ensino superior público, o cotista – especialmente o de baixa renda – recebe o suporte para a sua permanência e o êxito acadêmico durante a trajetória universitária. Baseada no Plano Nacional de Assistência Estudantil (Pnaes), a política de assistência estudantil da UFRN oferece auxílios à moradia, alimentação, transporte, creche, saúde, óculos, entre outros concedidos a partir das necessidades de cada pessoa, além de bolsas de apoio técnico e acadêmico. No Campus Central de Natal, a Residência Universitária e o Restaurante Universitário são utilizados gratuitamente pelos jovens de baixa renda, já nos campi do interior a assistência é convertida em ajuda financeira.
O pró-reitor de Assuntos Estudantis, Edmilson Lopes Júnior, avalia que a semelhança de rendimento entre estudantes cotistas e da ampla concorrência é fruto da assistência, que proporciona condições favoráveis, a todos para uma graduação de qualidade, inclusive entre os vulneráveis socioeconomicamente. “O apoio aos universitários cumpre papel decisivo no êxito da sua jornada”, alega o professor.
De fato, a inexistência de auxílio seria um empecilho para Everton de Souza Frutuoso, 20 anos, cotista do 5º período de Medicina. Natural da zona rural de Ipanguaçu, região do vale do Açu a 214 quilômetros da capital potiguar, o primeiro colocado no curso em 2014 segue a vida acadêmica em Natal graças à moradia, alimentação e bolsa de permanência concedidas pela UFRN. “Não sei como faria sem ter esse suporte”, compartilha o estudante, que enxerga uma nova realidade na graduação antes considerada elitista.
“Tive receio de ser discriminado entre os meus colegas de turma. Porém, deparei-me com pessoas de diversas classes sociais que se tratam com igualdade. Tenho amigos que torcem por mim e sempre me ajudam”, comemora. Nos planos para o futuro, o jovem almeja praticar medicina humanizada e atender a comunidade onde nasceu.
“Nunca me esquecerei da minha história e quero mostrar que é possível chegar à universidade, independentemente de ser negro, de baixa renda e proveniente da escola pública. As cotas ajudam na nossa autoafirmação ao universalizarem o ensino superior”, declara.
Com informações da UFRN
Fonte: Blog do BG
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