07 de jan. de 2024 - Por Rodrigo Freire
Imagem: freepik
Essa semana conheci uma figura tão folclórica que senti falta de Câmara Cascudo na mesa para analisar esse caso.
Não é lenda. Todos sabemos e conhecemos várias figuras que não medem esforços para conquistar um lugar ao sol neste verão, preferencialmente em uma varanda de um condomínio de luxo. Não confundamos sucesso profissional com ascensão social; este último pode ser alcançado apenas aparentando ter sucesso.
Enquanto muitos se divertem no verão, ele trabalha. Está bebendo, dançando, mas está trabalhando para alcançar seu propósito. Suas opiniões e vontades são sempre fruto do cálculo. É preciso atenção para detectá-lo nos eventos sociais. Ele sempre se camufla. Em Natal, isso é fácil, já que quase todos os homens usam camisa preta. Apesar de termos excelentes lojas de moda masculina, a probabilidade é grande de todos estarem de camiseta preta. Seria o luto da moda?
Bem, voltando ao nosso carente ilusionista, começou contando suas proezas no tênis. Curioso, mas seu esporte tinha que ser tênis. Não estou dizendo que todos que praticam tênis são alpinistas, mas todo alpinista é tenista. Depois, falou do seu carro que exibe uma marca de prestígio, onde tenta pegar carona lutando para não ser atropelado pela avalanche dos juros. A academia onde malha, também serve para exercitar sua ambição. Enquanto os outros malham, ele sua por outros objetivos.
Após alguns minutos, percebemos que sua característica mais impressionante é contar vantagens de modo natural, fluido, despretensioso. Ele solta uma recente aquisição com a trivialidade de quem dá milho aos pombos. Em cada momento, procura a brecha para comentar de forma desafetada que comprou algo ou ainda, que esteve num jantar com A ou B. Nunca perde uma oportunidade de dar mais um passo — suas conexões são degraus.
Dá para imaginar que sonha em pegar o teleférico do casamento. Se um lugar ao sol é bom, um lugar à sombra é ainda melhor. Ele casa por amor, sim, mas pela sua meta. E sabemos que uma bela aliança sempre ajuda. Quando não consegue, escolhe alguém apenas pelo tamanho da bunda. Mais para frente não deveria se queixar que a parceira não tem valores, pois escolheu apenas uma bunda, certo?
— O medo atrai o objeto do medo.
Às vezes penso que ele não existe como pessoa, é apenas a materialização da ambição desmedida que se corporificou. Invariavelmente, dará um passo maior que a perna e, em um eventual deslize na montanha dos juros, será arremessado ao chão — neste momento descobrirá que está sozinho. As dívidas feitas na ânsia da aceitação o fizeram ser aceito apenas pelo que aparentava.
Seus amigos verdadeiros ficaram para trás. Se tinha que pisar em alguém para subir mais alto, fazia parte. Como os novos amigos não eram pessoas, mas sim degraus, ninguém virá ao seu socorro. Na sua busca pela aceitação, não percebe que os valores que fazem a diferença não podem ser comprados. A escolha das amizades, do esporte, do casamento, das suas convicções apenas por interesse cobra seu preço. A conta sempre chega. É neste momento que percebe que não importa o tudo que comprou, mas sim o nada pelo que se vendeu.
Marcus Aragão
Instagram @aragao01
Fonte: Blog do BG
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