22 de mai. de 2022 - Por Rodrigo Freire

Foto: Divulgação
Assisti, hoje, pelas redes sociais, o depoimento emocionado de uma mãe relatando as agressões recorrentes sofridas por seu filho no Marista. Ela pôs o menino no mundo, criou com todo amor. Escolheu um colégio para dar a educação, as amizades e os momentos únicos que sonhou para seu filho. Então, fica sabendo que outros garotos o perseguem e batem nele. O motivo: sua cor. Não bastasse a dor que ela estava passando, teve que enfrentar o descaso com que o Marista vem lidando com essa situação. Ela relatou que passados um ano e meio, nenhuma reunião para tratar do assunto. Quando finalmente conseguiu, ouviu frases evasivas como resposta.
Antes de prosseguirmos, lembro que não é possível falar sobre o preconceito, o racismo que os afrodescendentes sofrem sem refletir sobre a escravização. Por isso lhe pergunto: existe racismo no Brasil? Racismo estrutural? Como pode o país do futebol, do samba, do carnaval… a nação alegria que tem um povo hospitaleiro ser racista?
Bem, acho que não somos tão legais assim.
O Brasil foi o maior traficante de escravos do mundo, o último pais do ocidente a abolir a escravidão. E só abolimos porque a Inglaterra veio até o nosso litoral com sua frota de guerra e deu alguns tiros de canhão como forma de advertência. Nossa crueldade foi tanta com os negros que mostrou o tamanho da nossa estupidez. A expectativa de vida do negro era de apenas 18 anos no Brasil. Nos EUA era quase o dobro. Isso tudo porque nossa violência foi sem limites. Era preferível ficar sem a mão-de-obra precocemente do que diminuir as torturas. Os EUA protestantes ensinaram aos negros a ler e escrever, no Brasil, a igreja católica não permitia a alfabetização. O resultado disso foi devastador para nossa economia atual, mas é tema para outro artigo.
Existe dívida histórica? Você pode achar que torturar e privar de educação por mais de 300 anos não seja algo tão grave, algo que uma canetada de uma princesa resolva. Abolimos a escravidão e, agora, direitos iguais para todos! Nada de cotas! Não é tão simples assim. Mais parece hipocrisia, tal como dizer: “Ninguém pode dormir debaixo da ponte. Nem pobre, nem rico, nem milionário! Quem dormir será preso”.
Por que será que não vemos os negros em tantas posições de destaque? Apenas quatro por cento dos deputados, estaduais, federais e senadores eleitos, em 2018, eram negros. Nas 500 maiores empresas que operam no Brasil, apenas 4,7% dos cargos de direção são ocupados por negros. Apenas 10% dos engenheiros são negros. Você já foi atendido por quantos médicos negros? Será que isso acontece porque eles são burros? Ou porque não tiveram oportunidades?
Eles não tiveram acesso à qualidade de vida aliada a uma boa educação. Uma recente pesquisa mostra que as notas dos cotistas no último ano de curso se distanciam dos demais alunos em apenas 1%. É só darmos oportunidades que os resultados aparecem.
E olhe que não faz tanto tempo assim que fechamos as senzalas. É possível que os afrodescendentes que encontramos na rua hoje, sejam netos ou bisnetos de escravos. De 1888 para 2022 são 134 anos. A Lei Áurea era só uma folha de papel. Não se apaga o racismo enraizado em nossa cultura durante séculos com uma assinatura. É preciso, primeiramente, reconhecermos o que fizemos e o que estamos fazendo, para só então podemos mudar como sociedade.
Além da herança histórica, esse posicionamento na sociedade, no mercado de trabalho em que o negro ainda se encontra, leva a eternizar o racismo. Além de políticas públicas para reverter essa situação, é preciso empatia. Temos que nos colocarmos no lugar dessa mãe para podermos imaginar sua dor e lutarmos para que isso não se repita. Eu escrevi esse artigo. O Marista o que fará?
Marcus ARAGÃO
@aragao01
Fonte: Blog do BG
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