30 de dez. de 2022 - Por Mariele Araujo
Reprodução
As conquistas infinitas de Pelé tornam-se ainda maiores quando lembramos que ele era bisneto de escravos. Sim, ele nasceu apenas 52 anos após a abolição, magrinho, extremamente pobre e tinha somente 17 anos quando ganhou sua primeira copa do mundo, em 1958.
Ele teve que driblar todas as adversidades e desenvolver uma autoconfiança só comparável a Muhammad Ali. Se hoje já seria difícil enfrentar os preconceitos, imagine naquela época. Alguns times não aceitavam negros. O Internacional de Porto Alegre é chamado de Colorado porque aceitava pessoas de cor. O Grêmio não contratava pretos. É importante citar isso para que possamos entender a conjuntura da primeira metade do século 20.
Um exemplo de sua determinação foi contado por Rivelino que disse que na concentração da Copa de 70 foi “servido um bife muito ruim e duro… todo mundo reclamou”. Pelé foi o único que não reclamou e ainda comeu o bife, cortou em pedaços pequenininhos e comeu tudo. Era o primeiro que levantava para treinar e o último a sair. — Lembra o ex-meia/ponta esquerda da seleção. Outro fato impressionante é que, em 1959, Pelé jogou 103 partidas, quase uma a cada 3 dias. Pelé era uma estrela sem estrelismos.
Acho difícil imaginar Pelé querendo tantos holofotes sem ser pelas suas jogadas. Nossos jogadores atuais fazem tudo para chamar a atenção. Pintam cabelo de amarelo; tatuam todas as partes do corpo; fazem uma espécie de dancinha da chuva caricata que só faz chover críticas. E, ao mesmo tempo, turbinam com seus dólares perfis de redes sociais para mostrar como são boa gente — Mostrando suas belas jogadas e vencendo a pobreza na infância com um fundo musical empolgante.
— Um placar impressionante: 1.279 gols em 1.363 partidas.
Nelson Rodrigues, um dos maiores escritores que tive honra, felicidade e prazer de ler, viu Pelé jogar pelo Santos quando tinha 17 anos. “Pelé tem uma vantagem considerável sobre os outros jogadores. Ele sente que é um Rei, da cabeça aos pés.” Foi aí que pegou a expressão “Rei do Futebol”. Ao contrário de diversos outros jogadores que o próprio Nelson Rodrigues dizia ter complexo de vira-latas, pois se borravam diante de grandes times. Pelé não dava bola fora. Além de fazer gols, tinha senso supremo para se posicionar em campo, capacidade de ler o jogo instintivamente e controle magnético da bola. Sempre estava no lugar certo e na hora certa. Fora das quatro linhas nunca foi pego com drogas, bebidas, problemas com impostos e festanças com os “parças”. O que existe é um fato isolado, um lance polêmico com uma filha fora do casamento. Não é a toa que Andy Warhol falou que Pelé foi um dos poucos que contradisseram sua teoria: “Ao invés de 15 minutos de fama, ele terá 15 séculos”.
— Deus salve o Rei!
Obrigado por tudo, Pelé. Deus sinalizou o fim do tempo regulamentar, mas o apito final não terminará nunca o futebol arte que você inventou. Você agora foi escalado para partidas em outras dimensões.
Ore pelos seus súditos ao lado do Pai.
Por Marcus Aragão.
Fonte: Blog do BG
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