19 de set. de 2022 - Por Rodrigo Freire
Foto: Canindé Soares
Todo mundo aqui conhece uma família que esqueceu seu ente querido na velhice. Deixou para trás aquele parente que hoje só conta mesmo com a indiferença daqueles que mais deveriam cuidar. É triste, é lamentável, e também carrega uma boa dose de hipocrisia daqueles que pregam bondade, valorização da família, mas na vida real agem tão diferente do que pregam.
O artigo de hoje vem falar sobre o bairro idoso da nossa cidade — a Ribeira. Esquecido por todos os políticos que apenas fazem vista grossa para o total abandono. Quanta ingratidão com o bairro que, juntamente com a cidade alta, foi tão importante para nossa cidade. Antes fosse só ingratidão, mas tem uma boa parcela de incompetência e burrice. Se não sabe resolver, é incompetente. Se sabe e não resolve, é pura falta de inteligência. Digo isso porque a cidade poderia ser beneficiada com o renascimento da Ribeira.
Imaginemos que a cidade é uma pessoa e uma parte do seu corpo está doente. É uma opção não tratar? Esquecer é um bom remédio? Claro que não. A falta de circulação sanguínea gera gangrena assim como a falta de circulação de pessoas, mata o bairro. Como a gangrena no corpo humano vai se espalhando, no bairro também. Repare que a falta de fluxo na Ribeira, comprometeu a Avenida Rio Branco. Já atingiu a Avenida Princesa Isabel, Ulisses Caldas e já está na Deodoro da Fonseca.
Trazer vida para a Ribeira beneficiaria inúmeros segmentos e pessoas. Incentivos fiscais para a construção de prédios evitaria que muita gente tivesse que morar em bairros tão distantes do centro comercial da cidade. Quem não queria morar perto de tudo? fugir dos engarrafamentos? A primeira etapa seria devolver a circulação de pessoas, depois o comércio seria estabelecido naturalmente para atender essa demanda. Padarias, mercados, academias, cafés, butiques, clínicas, salões de beleza e muito mais.
Este desafio é a realidade de cidades de todo mundo. Recife teve êxito em recuperar o Recife antigo. Nos Estados Unidos inúmeros bairros foram recuperados. Em Rochester, Minnesota, o programa One home at a time (Uma casa por vez); em Richmond, Virginia, lançou o Urban Pioneers (pioneiros urbanos), onde quem se mudar para a área a ser restaurada tem 1/3 do financiamento perdoado, caso more no bairro por pelo menos sete anos. Sempre através de incentivos fiscais, crédito facilitado e um planejamento assertivo. Somos livres para escolher nossa melhor solução de acordo com a realidade local. O que não pode é não fazer nada.
Aliás, às vezes é melhor nem fazer nada. Um absurdo foi a construção do Terminal Marítimo de Passageiros de Natal. Uma obra que custou R$ 74 milhões pelo PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) e, desde 2014, está a ver navios. Aliás, nem isso. Sabe por quê? Simplesmente a ponte Newton Navarro não tem altura para receber as embarcações de cruzeiro com a capacidade que precisamos. Foram R$ 74 milhões gastos sem planejamento.
Outra questão importante é vermos bairros distantes sendo habitados — claro que não sou contra o crescimento da cidade, mas é relevante lembrar que o custo é elevado para levar energia, água, pavimentação, saneamento, internet, transporte público, segurança, entre outros. A Ribeira tem tudo — exceto segurança, pois ninguém tem. O que estamos esperando?
— Então, quem vai dar a mão para a Ribeira?
Em 2015, o BID — Banco Interamericano de desenvolvimento lançou o BID UrbanLab para encontrar soluções criativas para os problemas urbanos das cidades da América Latina e Caribe. Em 2017, o desafio foi a busca de soluções para a Ribeira. O projeto vencedor foi dos alunos da UFRN. Infelizmente, nada mudou. Mas é bom perceber que até o BID tentou fazer algo para ajudar nossa ribeira. E nós, o que faremos?
Não podia terminar sem falar do Iphan — Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Aquele órgão que trata dos tombamentos. Com raríssimas excessões a Ribeira hoje é quase um parque arqueológico — só tem ruínas de uma civilização remota. Muito mais que uma hipocrisia é uma piada de mal gosto falar em tombamento daqueles prédios. Eles estão tombando literalmente por falta de manutenção. O tempo esta derrubando um após o outro. O Iphan pode frear o progresso, mas não pode evitar a demolição natural que ocorre pelo total abandono do bairro. Com planejamento e boa vontade é possível conciliar o passado e o futuro.
A Ribeira agoniza esquecida no canto da cidade. Até quando?
Marcus Aragão
Instagram @aragao01
Fonte: Blog do BG
Carregando comentários...

01 de ago. de 2026

01 de ago. de 2026

01 de ago. de 2026

01 de ago. de 2026