28 de mar. de 2016 - Por bruno
Iniciar uma faculdade ou fazer uma pós-graduação fica cada vez mais difícil em um momento de redução da renda e crise econômica. Mas se a decisão é essa, o estudante pode acessar as linhas de crédito oferecidas por bancos e instituições de ensino e, dessa forma, viabilizar esse projeto. No entanto, é importante ficar atento: os juros nesse tipo de operação são superiores aos do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), do governo federal. As condições também são menos amigáveis para o aluno.
As linhas de crédito para o pagamento de mensalidades universitárias, em especial para a graduação, sempre existiram, mas ganharam força do ano passado para cá. A razão foi a redução do Fies. Com o governo sem ter de onde tirar dinheiro, precisou enxugar o programa, o que resultou em maiores exigências para a elegibilidade ao Fies (nota mínima do Enem de 450 pontos e não ter tirado zero na redação) e prioridade para um determinado grupo de cursos.
Essas mudanças fizeram com que o saldo de novos contratos (diferença entre as concessões de novos financiamentos e cancelamentos) caísse à metade, passando de 732 mil em 2014 para 295 mil no ano passado. Segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia ligada ao Ministério da Educação (MEC), o número de vagas oferecidas em 2016 ficará em torno de 314 mil.
CRESCIMENTO DE ATÉ CINCO VEZES
Com as restrições do Fies, faculdades e bancos passaram a ser mais ativos na concessão de crédito educativo, com o objetivo de manter o número de matrículas ou, pelo menos, evitar um tombo muito forte nelas. Mas, enquanto no Fies o juro é de pouco mais de 0,5% ao mês (6,5% ao ano), no sistema privado a taxa pode chegar a 3% ao mês — e o prazo de pagamento também é menor. Apesar do custo mais elevado, pode ser uma alternativa para quem considera importante obter uma maior qualificação profissional ou para quem já está perto de concluir o curso.
— Nos últimos 12 meses, o número de novos alunos financiados é cinco vezes superior ao período anterior — afirma Carlos Furlan, diretor executivo da Ideal Invest, que faz a gestão do Pravaler, programa de financiamento estudantil privado que, no período, finalizou mais de 180 mil análises de crédito.
Esse crescimento coincide justamente com as regras mais restritivas do Fies. A taxa de juros do Pravaler também é superior à do programa federal: 1,35% ao mês. O cadastro pode ser feito pelo site do Pravaler, que tem parceria com uma série de instituições de ensino, inclusive para cursos de pós-graduação, que estão fora da alçada do Fies.
O pagamento do empréstimo será feito em um prazo equivalente ao dobro do período financiado. Então, se o estudante passar os quatro anos da faculdade usando esse crédito, terá oito anos para pagar. Ou seja, em média, vai desembolsar mensalmente mais ou menos 50% do valor da mensalidade — no Fies, há uma carência de 18 meses para o início do pagamento, sendo que a dívida pode ser quitada em até três vezes o período financiado.
NÃO É PROBLEMA DE DEMANDA, mas DE OFERTA
Como em qualquer operação feita com um banco, há uma análise de crédito para a aprovação do financiamento. Segundo Furlan, a Pravaler tem aprovado, em média, um terço dos pedidos. A cautela é para evitar o aumento da inadimplência, que tende a ser maior em períodos de inflação elevada e desemprego em alta. Apesar dos juros mais elevados, a instituição tem feito parcerias com as universidades — como a Estácio de Sá, no Rio, e a São Judas Tadeu, em São Paulo — para ampliar a oferta. Além da análise de crédito, é preciso ter um avalista.
Para as faculdades, esse tipo de parceria apresenta vantagens, pois permite não perder um aluno que está em fim de curso e ainda garante novas matrículas.
A Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), que tem 4,2 mil alunos na graduação, sentiu os efeitos das mudanças do Fies e buscou uma instituição financeira para oferecer alternativas. Ismael Rocha, diretor acadêmico do estabelecimento de ensino, conta que os alunos com Fies representavam 9% do total. Agora, essa participação caiu para 5%.
— Essa redução de alunos com financiamento do Fies não se deu por culpa da demanda e, sim, por culpa da oferta. Então buscamos um parceiro para dar essa alternativa — explica Rocha.
Outro plano da faculdade é ampliar o número de bolsas, em geral concedidas para aqueles mais bem colocados no vestibular. Mas, para o aluno em dificuldade financeira, como a perda do emprego próprio ou de alguém da família, o conselho dos especialistas é procurar o estabelecimento de ensino e negociar. Rocha conta que essa procura por descontos e bolsas temporárias, de até seis meses, cresceu muito recentemente:
— Se compararmos com o primeiro semestre do ano passado, aumentou em três vezes o número de pedidos de bolsas temporárias. Vamos ampliar essa oferta para reter talentos nesse momento.
Para os financiamentos, que estão disponíveis o ano todo e para cursos da graduação e pós, a ESPM tem uma parceria com o Bradesco, que também faz acordos com outras universidades.
O diretor de convergência de produtos e serviços do banco, Antônio Diniz, conta que cresceu a procura, desde o ano passado, por universidades interessadas em compensar a redução do Fies. Também há mais alunos buscando esse tipo de crédito em razão da atual situação econômica.
— Tem um aumento de demanda recente. Esse tipo de financiamento não tem uma relação tão direta com o nível de desemprego, mas sem dúvida afeta — afirma Diniz.
A taxa de juros pode ser de até 2,56% ao mês, a depender do acordo fechado com cada faculdade, já que algumas preferem subsidiar parte dos juros para promover as matrículas em determinados cursos ou campus. Esse subsídio pode chegar a 100% do juros — mas, neste caso, a correção da prestação é feita pela inflação, que ainda está em patamares elevados.
— Para a faculdade essa parceria é muito interessante, já que ela recebe os recursos de uma vez em seu caixa. Já o aluno passa a pagar mais ou menos 50% do valor da parcela, por isso a demanda crescente — explica Diniz, complementando que o prazo de pagamento é equivalente ao dobro do período do curso financiado.
QUANTO MAIOR O PRAZO, MAIOR O JURO
É também necessária uma avaliação de crédito. Atrelado a isso, o estudante abre uma conta corrente no banco e tem direito a um cartão de crédito com isenção de tarifa por um ano, entre outros benefícios. Não há necessidade de avalista se houver comprovação de renda. Os recursos podem ser usados tanto para o pagamento de mensalidades de um curso de graduação ou pós como para a compra de materiais (no caso de estudantes de odontologia, por exemplo) ou cursos no exterior.
O Santander também oferece esse tipo de crédito atrelado a parcerias com instituições de ensino. No caso de uma pós-graduação ou de especializações, a taxa de juros é de 2,39% ao mês, e o valor do curso pode ser parcelado em até 36 meses. Há também uma opção de crédito pessoal voltado à compra de materiais ou à matrícula. Neste caso, a parcela é de 2,89% ao mês se o total for pago em até 24 parcelas. Para prazos de 25 a 36 meses, a taxa sobe para 3,29% ao mês.
O Globo
Fonte: Blog do BG
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