23 de dez. de 2023 - Por Rodrigo Freire
Foto: Shutterstock
“Vou encher a lata”, dizia Agenor enquanto esperava, com expectativa de um adolescente, pela confraternização da firma. Já tinha ouvido falar que seria uísque 18 anos rasgado. Poderia beber e comer do bom e do melhor como se não houvesse amanhã — no caso dele, quase que não teria mesmo. Deixemos para os parágrafos finais.
Dizia para os mais chegados: — Chego às 20 horas! Quero nem saber.
— Mas só começa às 21 horas. Respondiam os já acostumados com seus exageros.
— Vou pegar um bom lugar pra gente. Deixe comigo, sei o que estou fazendo.
Entendia este dia como a chance que a vida, ou o emprego, tinham para se redimir com ele. Sentia-se merecedor da festa. Afinal, tinha engolido muito sapo como escriturário na firma e acreditava que seria citado como um dos destaques do ano. Ansiava por esse momento.
Tinha seus 35 anos e ainda morava com a mãe. Uma professora aposentada pelo Estado que sofria com artrite nas mãos e no quadril. Caminhava lentamente pela casa dentro de um vestido bem largo para encobrir seu sobrepeso.
Vendo o filho se arrumar empolgado demais, e já sabendo a natureza complexa deste, profetizava: — Tu não vai encher a cara nessa festa. Chega em casa cedo. Olhe, olhe!
— Vou de Uber, mãe. Está tudo sob controle. Se preocupar para quê? Sei o que estou fazendo.
E assim foi, chegando antes de todos, quando a organização ainda colocava os copos nas mesas. Decidiu ir à cozinha e chamou o primeiro garçom que viu. Entregou 30 reais discretamente e falou: — Você me ajuda e eu lhe ajudo. Táqui, segura. Estou sentado naquela mesa perto do palco… desenrola um uísque que a sede tá grande. — Completou já saindo: “Bastante gelo, bastante gelo”.
Quando a festa começou mesmo, nosso Agenor já estava desproporcionalmente animado. Falava alto e cuspindo sem perceber, abraçava amigos, chamava mulheres para dançar que nem davam cabimento para ele. Já andava inclinado e a camisa estava meio desensacada.
É que o uísque trouxe a alegria à frente como um empréstimo, antes dos fatos que ele tanto sonhava terem se concretizado. O destilado já envolvia Agenor com a satisfação plena de suas realizações. A homenagem da diretoria, quem sabe a promoção e a chance de ficar com Carol da contabilidade. Estava eufórico.
Quis o destino que as coisas não saíssem como o esperado. Não foi citado no discurso da diretoria, nem promoção. E a alegria emprestada pelo uísque é cobrada com juros e o vazio foi rapidamente preenchido com angústia e revolta.
— Nasci para me fudê. Se estou embriagado é porque não uso droga. Se cheirasse cocaína agora ficava bonzinho. Sei como é que é… vi num filme. — Falava alto e sem pudor na mesa frases quase aleatórias entre risadas estridentes.
Abraçando o colega ao lado, disse: — Matheus, você é meu amigo-irmão. Gosto de você pra caralho e você sabe disso, né? E repetia: — Você tá ouvindo, porra? — Atropelava as palavras sem dar tempo para o outro falar.
— Escuta, vou abrir uma empresa e você vai ser meu sócio. Presta atenção! Vamos dominar esse mercado que só tem filha da puta. E nosso Agenor gargalhava alto.
E de repente é tomado por uma certeza inequívoca. Como que possuído fica de pé: — Ei, se levanta Matheus! Vamos lá na mesa da diretoria que vou falar umas verdades que ainda estão engasgadas com Seu Rubens.
— Tu vai para onde, Agenor? Se aquieta, porra!!! Tá todo mundo olhando. Tá doido, rapaz!!! — Disse o constrangido amigo já procurando se desvencilhar do alterado.
— Você é um cara acabado, Matheus. É um verdadeiro morto nas calças. Pois vou lhe mostrar como se faz e ai se aquele diretorzinho de merda falar tanto assim, meto a mão na cara dele. VTNC!
Nosso herói da bebedeira vira o copo, bate na mesa, enche novamente e se levanta, afastando a cadeira com a lateral do joelho, oscila, se recompõe e segue em direção à mesa da diretoria.
Passando pela pista de dança se encontra com Carol, ele não consegue falar mas mantém o olhar até sentir um frio na barriga. — Ela me encarou! Tá muito afim de mim. Tenho certeza.
Agenor se recupera de um pequeno tropeço e retoma a caminhada da mesa da diretoria. Procura Seu Rubens e o encontra. A mesa ficava ao lado de um lindo presépio de Natal. Ele resolve olhar para trás e percebe todos na sua mesa testemunhando assustados o que vinha pela frente.
O copo parece um vulcão e a bebida larva que incendeia Agenor por dentro. Áreas sagradas de sua mente estão alagadas de uísque — traumas e recalques eternos que hibernavam desde sua infância, agora estão despertos e assumem o controle de Agenor.
— Seu Rubens, Seu Rubens!! — O homem se levanta com sua fisionomia fechada de quem conhece as várias facetas do ser humano.
— Pois não, meu jovem. — Falou com ar meio tenso.
— Seu Rubens, queria te falar uma coisa e tinha que ser pessoalmente. — Agenor sentiu o tempo parar e o ar entrar pesado pelas suas narinas… havia chegado a hora. Seu olhar era fixo. Sentia contrair o maxilar. Respirou fundo e continuou.
— Seu Rubens, eu queria te falar… é que… tudo que o senhor falou no seu discurso… Foi muito inspirador. É uma honra fazer parte desse time vencedor. Parabéns e Feliz Natal!!
Se abraçam demoradamente com incontáveis tapinhas nas costas. Agenor se despede e prefere ir embora da festa. Queria deixar algum suspense na sua mesa. Será que foi medo? Será que foi o olhar de Carol que apagou o incêndio interior? Será que foi a imagem do presépio de Natal?
Bem, em algumas confraternizações nunca dá para saber as intenções de todas as pessoas. Ainda bem que temos o amor e o espírito natalino para promover a confraternização. No final, só o amor salva!
Feliz Natal.
Marcus Aragão
Instagram @aragao01
Fonte: Blog do BG
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