19 de out. de 2014 - Por bruno

Foto: Divulgação
Inimigos íntimos pela sexta vez em eleições presidenciais, PT e PSDB vivem às turras desde 1994 quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, então ministro das Relações Exteriores de Itamar Franco, assumiu a pasta da Fazenda e, de lá, pilotou o Plano Real – divisor de águas da economia e da política no período da redemocratização.
O Real abriria um fosso nas relações do PT com o PSDB e alimentaria a longa polarização que, de 1994 e 2014, transformou antigos aliados em adversários ferrenhos. Tucanos e petistas estiveram juntos na resistência à ditadura, no palanque das Diretas-Já, na Assembleia Nacional Constituinte e, em 1992, no impeachment do ex-presidente Fernando Collor. Hoje, que ninguém os convide para a mesma mesa.
O caldo que daria na polarização começaria a entornar quando Fernando Henrique lançou o Plano Real. O PT, que perdera por pouco o embate contra o ex-presidente e atualmente senador, Fernando Collor, cinco anos antes – mas tinha em Luiz Inácio Lula da Silva seu grande capital político acumulado na oposição -, viu as chances de chegar ao poder evaporar. Ainda assim, numa leitura reconhecida como equivocada apenas 15 anos depois, posicionou-se contra o Real, sinalizando que os tucanos, a partir de então, seriam adversários preferenciais.
Na disputa que se formaria no mais longo período de democracia, o PT leva vantagem. Perdeu de lavada as duas primeiras eleições (1994/1998), no primeiro turno, mas venceu as últimas três. Essa guerra tem como paralelo a política dos Estados Unidos, onde os centenários partidos Democrata (com programa e apoiadores mais parecidos com os do PT) e Republicano (semelhança com PSDB) travam disputa secular, alternando-se no poder.
Lá, os democratas fizeram 14 presidentes (de Franklin Roosevelt a Barack Obama), enquanto os adversários elegeram 18 presidentes (de Abraham Lincoln a George W. Bush). Aqui, com uma reeleição diferente (o reeleito pode voltar depois de quatro anos, enquanto nos Estados Unidos depois de dois mandatos ninguém pode retornar à Casa Branca), o placar está três a dois a favor do PT.
A polarização é alimentada por dois projetos de poder que, paradoxalmente, são complementares e diferentes. Os tucanos cuidaram essencialmente da economia, optando pelo controle da inflação, responsabilidade fiscal e menor interferência do Estado nas relações de mercado – a onda das privatizações é consequência disso.
Já o PT, graças à política de Lula, retirante nordestino que sentiu na carne o que é pobreza, implantou as bases da inclusão social, reunindo num só projeto – e ampliando – programas pequenos que estavam esparsos na gestão tucana. O Bolsa Família, por exemplo, nasceu da Comunidade Solidária, gerida pela ex-primeira dama, Ruth Cardoso.
Se Lula surfou na onda da estabilidade, os tucanos lamentam ter desprezado a oportunidade de melhorar o programa, que hoje atende cerca de 50 milhões de pessoas. O PSDB chegou a cinco milhões de pessoas.
Nos debates do segundo turno, um na Band e outro no SBT, Dilma Rousseff, a presidente candidata pelo PT, e Aécio Neves, senador e presidenciável do PSDB, chegaram a travar uma disputa pela paternidade do programa, num embate que mais parecia a tentativa de esclarecer o velho dilema sobre quem nasceu primeiro, se foi o ovo ou a galinha. O certo é que a economia da era tucana e a inclusão social do período do PT estão entrelaçados.
O preço da polarização
Longe da política de projetos e ações, a polarização entre PT e PSDB é uma das responsáveis por uma chaga da política brasileira: o promíscuo balcão de negócios que se forma a cada eleição.
Na frenética corrida em busca de espaço no horário eleitoral gratuito no rádio e televisão, os grandes assediam nanicos e pequenos, formam coligações que, de tão esdrúxulas por falta de identidade ideológica ou pragmática, desaparecem logo no segundo turno.
Os pequenos partidos acabam pagando preço alto por alimentar a polarização: a opção pela insignificância. Com baixa representação no Congresso, perdem identidade própria e acabam dando um tiro no pé, deixando de aumentar a fatia do fundo financeiro partidário a que todos têm o direito e nem conseguem se comunicar com eleitores potenciais.
As campanhas eleitorais de 2014 sugeriam, uma semana antes da votação do primeiro turno, que a histórica polarização seria rompida pela candidata do PSB, Marina Silva. Ancorada na repercussão da morte do então candidato Eduardo Campos, Marina chegou a passar Dilma na preferência do eleitorado, mas depois, esgotada a fase emocional da campanha, enfrentou um agressivo processo de desconstrução, colocado em prática por PT e PSDB.
A falta de capilaridade partidária colaborou para que a preferência da senadora despencasse, chegando ao final com pouco mais de 21% dos votos, quase o mesmo índice que obteve em 2010.
Ao anunciar o apoio a Aécio, seduzida por alterações no programa tucano e pela perspectiva de espaço na Esplanada dos Ministérios em um eventual governo tucano, Marina parece não só ter aberto mão de se viabilizar com uma terceira opção, como também produziu rachas e dissidências na ainda “clandestina” Rede e no PSB. A ex-senadora sai dessa eleição politicamente mais magra, e com o verde e o vermelho que coloriu o pacto com os socialistas, desbotados.
A ressurreição de Aécio do PSDB, cujos necrológicos haviam sido redigidos pelos institutos de pesquisa uma semana antes da votação do primeiro turno, sinaliza que a polarização se repetirá em 2018.
IG
Fonte: Blog do BG
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