04 de jan. de 2017 - Por bruno
O mesentério é um velho conhecido da anatomia humana. Ele foi descrito pelo cirurgião britânico Frederick Treves em 1885, mas desenhos do italiano Leonardo da Vinci, do século XVI, já identificavam a estrutura responsável por conectar o intestino à parede do abdômen. Por séculos ele ficou relegado a uma das partes do peritônio, mas um novo estudo, publicado recentemente no prestigiado periódico científico “Lancet Gastroenterology & Hepatology“, elevou o mesentério ao status de órgão, o 79º do corpo humano.
— No artigo, que foi revisado e avaliado por colegas, estamos dizendo que temos um órgão no corpo que não era reconhecido como tal até esta data — disse o professor da Universidade de Limerick Calvin Coffey, autor do estudo. — Quando o abordamos como um órgão como outro qualquer, podemos categorizar doenças abdominais em termos deste órgão.
Até então, a medicina tratava o mesentério como uma estrutura fragmentada, responsável pela fixação dos órgãos da parte inferior do sistema gastrointestinal à parede do abdômen. O atlas “Gray’s Anatomia”, por exemplo, descreve que o “mesentério é normalmente desdobrado em múltiplas pregas ao longo de sua borda intestinal”. Ele cita o “mesentério do intestino delgado”, o “mesentério do duodeno”, o “mesentério do cólon” e o “mesentério do apêndice”.
Acontece que em seus estudos, Coffey e seus colegas perceberam que se trata de uma membrana única, que se estende do reto ao intestino delgado, na base do estômago. No artigo, os pesquisadores descrevem a estrutura do novo órgão, com sua composição anatômica e conexões com outros órgãos do corpo humano.
— Durante a pesquisa inicial, nós percebemos que o mesentério, que conecta o intestino ao corpo, era um órgão contínuo. Até então ele era visto como fragmentado, presente em alguns lugares, e uma estrutura muito complexa — disse Coffey. — A descrição anatômica que foi estabelecida nos últimos cem anos da anatomia está incorreta. Este órgão está longe de ser fragmentado e complexo. É apenas uma estrutura contínua.
Os pesquisadores começaram a descrever algumas patologias já conhecidas do trato intestinal que afetam o mesentério, como vôlvulo (obstrução causada pela torção ou formação de nós no intestino), hérnia interna, distúrbios vasculares e cistos. Mas o novo órgão também exerce papel em doenças secundárias, como o câncer do intestino, pois o mesentério aparentemente possui papel importante na propagação de tumores; e obesidade, diabete e síndromes metabólicas, pois o mesentério é o maior contribuinte para a adiposidade visceral.
— Isso é relevante universalmente e afeta a todos nós — disse Coffey. — Até agora não existia um campo como ciência mesentérica. Agora nós estabelecemos a anatomia e a estrutura. O próximo passo é a função. Se você compreender a função, pode identificar funções anormais, então temos as doenças. Coloque tudo junto e temos o campo da ciência mesentérica. É a base para uma área totalmente nova na ciência.
O Globo
Fonte: Blog do BG
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