30 de ago. de 2026 - Por Rodrigo Freire
Sérgio Azevedo, presidente do Sinduscon-RN | Foto: reprodução
O presidente do Sindicato da Indústria da Constrção Civil do RN (Sinduscon-RN) e vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Sérgio Henrique Andrade de Azevedo, encaminhou uma carta aberta aos senadores da República pedindo cautela na discussão sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.
Azevedo alerta para possíveis impactos sobre renda, empregos, custos das empresas, produtividade e setores com jornadas específicas, como a construção civil.
“Alguém perguntou a esses trabalhadores o que eles preferem?”, questiona o presidente do Sinduscon-RN, que também defende a negociação coletiva e um debate mais amplo sobre produtividade antes da redução da jornada.
Leia a íntegra abaixo:
Natal/RN, 28 de agosto de 2026.
CARTA ABERTA AOS SENADORES DA REPÚBLICA
Antes de decidir pelo trabalhador, é preciso ouvi-lo.
Senhor Presidente do Senado, Davi Alcolumbre, Senadores do Rio Grande do Norte, Rogério Marinho, Styvenson Valentim e Zenaide Maia,
Senhora e Senhores Senadores,
A discussão sobre melhores condições de trabalho e qualidade de vida é legítima e necessária. Mas uma alteração constitucional com tamanho impacto sobre trabalhadores, empresas, emprego, produtividade e renda não pode ser decidida sem uma análise profunda de suas consequências.
A proposta de redução da jornada e alteração da escala de trabalho parte de uma intenção que pode parecer simples. Como advertiu H. L. Mencken, para todo problema complexo há sempre uma solução simples, plausível — e completamente errada.
A realidade brasileira não é simples. Comércio, indústria, construção, saúde, turismo, infraestrutura, energia, agronegócio e serviços possuem características completamente diferentes.
Não é razoável imaginar que uma mesma solução seja adequada a todas essas realidades.
Na construção pesada e nas grandes obras de infraestrutura, milhares de trabalhadores permanecem mobilizados longe de suas cidades e de suas famílias por semanas ou meses.
Alguém perguntou a esses trabalhadores o que eles preferem?
Para muitos deles, pode fazer muito mais sentido trabalhar mais durante o período em que estão mobilizados, aumentar sua renda e concentrar o descanso para quando puderem efetivamente retornar para casa. Qual é o benefício de impor mais tempo ocioso a quem está a milhares de quilômetros da própria família?
Há ainda outra questão que precisa ser enfrentada com transparência: manter o salário-base não significa necessariamente manter a renda total do trabalhador. Em muitas atividades, menos horas trabalhadas tendem a implicar menor remuneração, porque reduzem a produção e, com ela, as parcelas variáveis, os prêmios e outras oportunidades legítimas de ganho.
Quem calculou esse impacto sobre a renda efetivamente levada para casa, sobre o custo das empresas e sobre a capacidade de contratação? Na construção civil, aumentos relevantes no custo do trabalho impactam o custo das obras, da infraestrutura e da habitação.
No final, alguém paga essa conta.
Pode ser a empresa, reduzindo investimentos e contratações. Pode ser o consumidor, pagando mais caro. Pode ser o trabalhador, perdendo renda ou oportunidades. E pode ser toda a sociedade, com menor produtividade, mais informalidade e menor crescimento econômico.
Queremos melhorar a vida de quem trabalha. Mas precisamos fazer isso aumentando produtividade, qualificação, renda e oportunidades, e não simplesmente reduzindo, por determinação constitucional, o número de horas disponíveis para produzir.
Por isso, fazemos um apelo ao Senado Federal:
Decisões constitucionais desta magnitude não deveriam ser tomadas em janelas curtas de calendário legislativo.
Não votem uma mudança dessa dimensão de forma apressada.
Ouçam os trabalhadores e ouçam quem emprega.
Avaliem os impactos econômicos e sociais e as particularidades de cada atividade.
Preservem e valorizem a negociação coletiva.
Antes de discutir redução da jornada de trabalho, o Brasil precisa enfrentar a questão que há anos limita nosso desenvolvimento: a baixa produtividade.
Países não se tornam mais produtivos porque trabalham menos. Tornam-se capazes de trabalhar menos porque se tornaram mais produtivos. Essa ordem importa.
Não podemos escolher apenas a parte agradável da equação e ignorar quem pagará a conta.
Senadores, essa decisão terá consequências por décadas. Façam o debate que a importância do tema exige.
Antes de decidir pelo trabalhador, ouçam o trabalhador.
Antes de aumentar o custo de contratar, ouçam quem gera emprego.
Antes de reduzir a jornada, discutam como aumentar a produtividade.
E, antes de mudar a Constituição, avaliem as consequências para o Brasil.
Atenciosamente,
Sérgio Henrique Andrade de Azevedo
Presidente do Sinduscon RN
Vice-Presidente CBIC
Fonte: Blog do BG
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