08 de jul. de 2018 - Por bruno

Foto: Divulgação
Houve uma época em que os smartphones eram a melhor coisa que já tinha acontecido na indústria da tecnologia – e, durante algum tempo, pareceram ser também o ponto alto das nossas vidas. Nos 11 anos transcorridos desde a estreia do iPhone, os smartphones absorveram praticamente todos os demais dispositivos portáteis, alterando todos os setores da economia, desde o jornalismo até o varejo, passando pelos táxis e pela televisão, finalmente reordenando tudo a respeito de como entendemos a mídia, a política e a própria realidade.
Mas, agora que os smartphones alcançaram tamanho grau de predomínio, paira no ar outra revolução.
As vendas globais de smartphones estão se estabilizando por uma razão óbvia: todos que podem comprar um aparelho desse tipo já o fizeram e público tem questionado cada vez mais se estaríamos usando os celulares demasiadamente, e sem nem sequer nos darmos conta disso.
Nas recentes conferências de desenvolvedores realizadas por Google e Apple, os executivos foram aos palcos para mostrar o quanto estavam tornando os celulares ainda mais irresistíveis. Então, essas empresas apresentaram algo diferente: programas para ajudar o usuário a mexer muito menos no aparelho.
Há uma razão pela qual as empresas de tecnologia estão sentindo esta tensão entre aprimorar os celulares e o temor que esses dispositivos já sejam demasiadamente viciantes. Chegamos a um ponto que eu chamo de auge das telas.
A esta altura, a tecnologia já capturou praticamente toda a capacidade visual. Os americanos passam três ou quatro horas por dia nos celulares, e cerca de 11 horas por dia olhando para algum tipo de tela.
Assim, as gigantes da tecnologia estão construindo o começo de algo novo: um mundo tecnológico que insista menos nos recursos visuais, panorama que depende muito dos assistentes ativados por voz, fones de ouvido, relógios e outras peças de vestir que aliviam um pouco a pressão sobre a visão.
Dependendo de como for o desenvolvimento dessas tecnologias, um ecossistema digital que exija menos dos olhos pode ser melhor para todos – menos imersivo, menos viciante, mais facilitador do estilo de vida multitarefa, menos desajeitado socialmente, e quem sabe até um alívio para nossas relações políticas e sociais.
Quem vai nos trazer esse futuro? Amazon e Google são claramente participantes de peso, mas não devemos subestimar a empresa responsável por nos trazer ao auge das telas. Com os avanços do Apple Watch e dos fones de ouvido AirPods, a Apple está criando lenta e discretamente uma alternativa para seus celulares. Se funcionar, a jogada pode mudar tudo novamente.
As telas são insaciáveis; vorazes vampiras da nossa atenção. Um estudo, realizado pelo professor de marketing Adrian Ward, da faculdade de administração da Universidade do Texas, revelou que a mera presença de um smartphone em nosso campo de visão é suficiente para reduzir de maneira significativa nossa capacidade cognitiva. É necessário investir uma considerável energia mental para resistir à tentação de olhar para o aparelho.
Quando cedemos, perdemos o juízo.
“Não somos tragados pelo objeto pontual que requer nossa atenção – uma mensagem de texto, publicação nas redes sociais ou seja o que for”, disse Carolina Milanesi, analista da empresa de pesquisa em tecnologia Creative Strategies. Em vez disso, destravamos o celular e, instantaneamente, quase de maneira inconsciente, mergulhamos nos irresistíveis esplendores do mundo digital, emergindo 30 minutos mais tarde, estupefatos e atordoados.
As telas se converteram numa muleta para os tecnólogos, uma forma preguiçosa e abrangente de acrescentar experiências digitais a todos os produtos.
Faz anos que observamos isso nos carros. Ao colocar os controles dos sistemas internos em telas sensíveis ao toque em vez de botões e interruptores tradicionais, as montadoras tornaram a interação com os veículos muito mais irritante e perigosa. O Tesla Model 3, o carro mais aguardado do planeta, eleva essa ideia a níveis absurdos. Como apontaram vários críticos, todos os controles do carro – incluindo o ajuste da posição dos retrovisores laterais – são acessados por meio de uma tela.
Outro exemplo é a realidade aumentada (RA), tecnologia que nos permite enxergar imagens digitais sobrepostas ao mundo real. Em alguns usos específicos – como transformar nosso rosto na cara de um cachorro no aplicativo Snapchat -, isso pode ser divertido. Mas, com frequência, a RA parece um recurso mal aproveitado. Em vez de criar um amálgama entre o real e o digital, a tecnologia simplesmente usa uma tela para usurpar o mundo ao nosso redor.
Na conferência de desenvolvedores da Apple realizada no mês passado, Martin Sanders, executivo da Lego, mostrou um novo modelo de Lego que usa a RA. Ao apontar o iPad para uma estrutura de Lego, a tela foi preenchida com fogos de artifício digitais, super-heróis e carros esportivos – toda uma movimentada cidade feita de Lego que ninguém precisou construir com as próprias mãos nem imaginar na cabeça.
“Há tanto para se fazer aqui!”, exclamou Sanders enquanto ele e um assistente permaneciam completamente imóveis, olhando para animações de Legos exibidas num vidro digital. Foi uma situação bizarra. A ideia central do Lego é a interação física, mas, graças à RA, o executivo transformou o brinquedo em mais um videogame.
Há duas maneiras de superarmos nosso vício nas telas. Primeiro, temos de ser mais parcimoniosos ao usar nossos celulares.
A ajuda está a caminho. Tenho usado o recurso Screen Time, uma das novidades da nova versão do sistema operacional da Apple para celulares. O programa exibe informações importantes a respeito do nosso uso do celular e pode até impedir utilização de aplicativos que o usuário considere prejudiciais. Imagino que isso pode mudar profundamente nossa maneira de usar esses aparelhos.
E há também a necessidade de se criar maneiras diferentes e menos imersivas de se interagir com o mundo digital. Três tecnologias podem nos ajudar nesse sentido: os assistentes ativados por voz, cujos melhores exemplos são a Alexa, da Amazon, e o Google Assistant; e os produtos da Apple, AirPods e Apple Watch.
Tudo isso está em fase de aperfeiçoamento. Os assistentes ativados por voz ainda não são capazes de fazer tudo para nós, embora Google e Amazon tenham milhares de engenheiros trabalhando em melhorias. Os AirPods são fantásticos – apresentam menos problemas de conexão do que outros fones de ouvido sem fio – e o Apple Watch exibe informações em quantidade suficiente para ser útil sem sobrecarregar o usuário.
Se a Apple conseguisse aprimorar a Siri, sua assistente ativada por voz, o Watch e os AirPods poderiam ser combinados em algo novo: um computador portátil que não funciona atrelado a uma imensa tela, possibilitando alguma produtividade móvel sem o risco de absorver o usuário. Imagine se, em vez de tocar incessantemente nos ícones dos aplicativos, pudéssemos simplesmente dizer aos AirPods, “Faça reservas para jantar às sete horas” ou “Verifique a agenda da minha mulher para saber se podemos sair essa semana”.
A Apple nunca teve medo de perturbar suas próprias grandes invenções. Ao repensar as telas, talvez a empresa tenha a oportunidade de fazer isso mais uma vez.
Estadão Conteúdo
Fonte: Blog do BG
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