14 de mar. de 2014 - Por bruno

Foto: Divulgação
O professor Rubens Ramos, da UFRN, impressiona sobre o comentário de um lado que pouca gente parou para pensar, na medida da empolgação das obras de mobilidade e as sonhadas melhorias no trânsito na capital. Veja abaixo seu comentário da reportagem da Tribuna do Norte.
Sou Professor na área de Eng. de Transportes na UFRN, tenho mestrado em Engenharia de Transportes, Doutorado em Engenharia de Produção e Pós-Doutorado em Transportes na França. Sou atualmente Diretor Técnico da Associação Brasileira de Engenheiros Civis. Me angustia ver esse tipo de iniciativa apresentada na reportagem Prefeitura garante R$ 577 milhões para obras de mobilidade urbana, e apresentada como sendo coisas boas, quando, inversamente, elas irão produzir enormes malefícios e pequenos e pontais benefícios que serão rapidamente eliminados. E não vão resolver a crise de mobilidade da cidade. Os projetos apresentados têm três problemas graves: (1) partem de diagnóstico equivocado, (2) adotam um modelo ultrapassado de mobilidade, (3) vão causar danos urbanísticos e econômicos talvez irreparáveis. Começando pelo final, Natal que tinha vocação histórica para ser uma cidade linda, moderna, como pensada 100 anos atrás em um plano de uma Cidade Nova, europeia, que séculos antes até mesmo os Holandeses chegaram a pensá-la como sua Nova Amsterdam, caminha agora para se tornar cada vez mais uma cidade feia, com passarelas colocadas no meio da rua, viadutos sem sentido, calçadas estreitas e feias com meio fio grotescos, rotatórias tecnicamente erradas, ruas bloqueadas de modo tosco, desorganização do trânsito, um sem fim de erros em engenharia de tráfego e urbanismo.
Os propostos túneis na Salgado Filho irão não apenas “enfeiar” a avenida, mas prejudicar gravemente a vida social e econômica da principal artéria da cidade, uma avenida histórica que resistiu por 100 anos e agora pode ser destruída rapidamente se esse projeto for adiante. A porta de entrada da cidade vai se tornar um grande túnel. Ao longo de seu percurso, vamos ter uma via expressa que irá separar os dois lados da via. Os empreendimentos comerciais e imobiliários irão perder valor. Vai se destruir riqueza e beleza. Não há vida social e econômica no entorno de túneis. Construir um elevado na João Medeiros é fazer o inverso do que o mundo está fazendo, derrubando elevados. O caminho é outro. Sobre o modelo ultrapassado de mobilidade, há nesses projetos o conceito obsoleto e errado de que mobilidade é de veículos quando mobilidade é de pessoas. E mobilidade de pessoas é transporte público de qualidade e capacidade, na ordem decrescente, metrô, tramway/bonde, linhas de ônibus articulados, ônibus. Um plano de mobilidade da cidade deve começar por estabelecer os eixos principais de alta capacidade, e nesse caso o ônibus, seja em BRT ou faixas exclusivas, não consegue dar conta.
Não é uma questão ideológica, simplesmente fisicamente o ônibus não consegue. Linhas de tramway/bonde como as das cidades europeias são necessárias. Os ônibus devem alimentar o sistema principal e preencher os vazios entre os eixos. E isso não reduz seu papel, mas o torna eficiente e aumentaria até sua atual demanda. As estações de transferência são um conceito ultrapassado quando a tecnologia permite a transferência em qualquer parada. Elas existem por um conceito equivocado de cobrança da passagem dentro dos veículos com cobrador e a irracionalidade da linhas atualmente existentes na cidade. Passarelas não dão mobilidade a pessoas, mas aos veículos. A passarela é um indicativo de subdesenvolvimento. Procure-se passarelas em Paris, Nova Iorque, Londres, Milão, Berlim… As passarelas não são solução, mas criam uma dificuldade de locomoção das pessoas. As pessoas têm que atravessar as ruas na superfície. O diagnóstico é errado. No caso dos carros, os atuais engarrafamentos da Salgado Filho são produto da Prefeitura e suas obras desnecessárias de (i)mobilidade urbana. São também produto de uma teimosia injustificada em não se adotar mão única na Salgado Filho e Prudente de Morais, e em todas suas transversais. A mão única resolve dois problemas de uma vez ? o fluxo principal e o fluxo gerado com os retornos nas conversões, pois acaba com os retornos. O corpo humano, as árvores, são a prova de que a mão única é a solução mais eficaz. E a adoção da mão única é simples, rápida e requer obras de menor valor. Não posso acreditar que a Prefeitura recuse a mão única e crie engarrafamentos para depois vender a ideia de que a solução são novas e dispendiosas obras de túneis. No caso dos ônibus, o problema principal está no sistema irracional de linhas que se superpõem nos corredores principais, criando um engarrafamento de ônibus, e no desconhecimento técnico de que o principal problema do transporte público é o tempo na parada. E para melhorar a parada o caminho é mudar o veículo, adotar o piso baixo e portas amplas, e abandonar o conceito obsoleto de cobrança da passagem dentro do ônibus com cobrador. O mundo já fez isso há 40 anos!
Por fim, e mais importante, há alternativas melhores. Para o trânsito, como já apontei, a mão única e sincronismo de sinais. Mesmo agora é possível produzir um alívio e fluidez no trânsito com mudanças simples nas vias. Para o transporte público, uma reorganização das linhas diametrais e radiais para um sistema híbrido chamado hub-spoke e grid, ou tronco-alimentador com linhas transversais, pode ser adotado rapidamente e daria um salto de organização em Natal. Os veículos de piso alto com escadas dificultando o embarque e desembarque têm que ser substituídos por ônibus de piso baixo. Mesmo o modelo de Curitiba está ultrapassado nesse quesito, pois ônibus de piso baixo não precisa de plataformas elevadas. O que lamento é que em Natal há pessoas como eu e várias outras com conhecimento técnico e experiência que podem ajudar a pensar uma cidade moderna no século XXI, com uma visão moderna de mundo. Infelizmente, a Prefeitura se fecha em si, em uma mentalidade obsoleta, e ameaça deixar um legado de atraso e danos econômicos e urbanísticos para a cidade. Parece que os atuais gestores da Prefeitura não gostam da cidade que administram.
Fonte: Blog do BG
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