15 de jan. de 2015 - Por bruno
“O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda. É quase chique.”
“Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos.”
“A grande preocupação do pobre é procriar.”
As opiniões sobre o acesso a planos de saúde pela população de baixa renda, publicadas pela colunista Silvia Pilz na crônica “O plano cobre”, do jornal O Globo, foram compartilhadas mais de 15 mil vezes em 24 horas. Alvo de fortes críticas nas redes sociais, a carioca se defende: “Não pediria desculpas”, afirma. “Não ofendi ninguém e fiz um texto divertidíssimo.”
Em entrevista à BBC Brasil, Pilz diz que “somos todos preconceituosos” e que no humor “vale tudo”. “Quem mais se divertiu com o texto foram os pobres”, alega a jornalista, moradora da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio. “Os incomodados são da classe média.”
BBC Brasil: Você esperava essa repercussão?
Silvia Pliz: Jamais.
BBC Brasil: Como recebeu os comentários negativos?
Silvia Pliz:Fiquei perplexa porque o texto é uma sátira. Esperava uma repercussão diferente. Há muitas pessoas que se divertem e outras que se revoltam. Meu blog fala sobre hipocrisia, eu digo ali o que eu penso. É o tipo de assunto que está todo mundo superacostumado a ver em novela da rede Globo. Fiquei um pouco chocada, as pessoas xingam, são brutas.
Fiz um texto tolo, corriqueiro, de humor, você escolhe a palavra que achar mais interessante, relatando o cotidiano da classe média. Meus textos são politicamente incorretos, sim, mas acho que muitas pessoas se divertiram muito.
BBC Brasil: E houve também quem não se divertisse.
Silvia Pliz: Essas pessoas talvez se identifiquem, ou se sintam agredidas com o que está colocado ali. Nem todo mundo entende o humor sarcástico.
BBC Brasil: Você diz escrever sobre o cotidiano da classe média. Mas a palavra “pobre” aparece de forma bastante enfática em todo o texto.
Silvia Pliz: Eu escrevo sobre o cotidiano de todos nós. Tenho textos falando sobre as coisas da classe “AAA”, da classe média. De repente eu virei uma Joana D’Arc por um texto em que uso a palavra “pobre”. Quando na verdade quem mais se divertiu com o texto foram os pobres. Os incomodados são da classe média.
BBC Brasil: Como sabe que os pobres foram quem mais se divertiu?
Silvia Pliz: Tenho as respostas no Facebook. Inclusive tem o depoimento de um cara que diz “Sou da classe pobre, ri, me diverti, não tem nada disso”. As pessoas estão equivocadas, é uma sátira.
BBC Brasil: Há limites para a sátira? O humor pode se tornar ofensivo ou vale tudo?
Silvia Pliz: Vale tudo.
BBC Brasil: Mas muita gente diz que você teria sido pejorativa e preconceituosa. Que estaria fazendo graça com a desgraça alheia. Vê coerência nisso?
Silvia Pliz: Zero coerência. Quem não se diz preconceituoso não tem dicionário em casa. Somos todos preconceituosos. Temos um preconceito sobre aquilo que a gente não conhece. Sou uma pessoa lúcida e sei que todo ser humano tem preconceitos. Isso é lucidez.
BBC Brasil: Imagino que se inclua.
Silvia Pliz: Então coloque: somos todos preconceituosos. Não eu. Aí fica ruim para mim.
BBC Brasil: Nesta entrevista, você justifica o que escreveu como crítica ácida, humor. Mas no texto e nas redes sociais você diz que falhou. Falhou ou não falhou?
Silvia Pliz: Olha… é dificil essa resposta. Acho que não falhei. Não pediria desculpas e diria “foi mal, não era bem isso que queria dizer”. Jamais. Me posicionei porque vi que a coisa estava pegando fogo e não queria que as pessoas tivessem uma imagem minha diferente do que sou. Realmente acho que, quando fazemos humor e ele precisa ser explicado, significa que foi mal feito.
Quando eu digo “falhei”, digo, “falhei como escritora na tentativa de fazer humor”. A reação foi ridícula. E hipócrita também, porque as pessoas são todas bem hipócritas. Fui vítima de um linchamento digital dos militantes da ditadura do politicamente correto. Não ofendi ninguém e fiz um texto divertidíssimo.
BBC Brasil: Dizer que “pobre gosta de procriar” não seria pejorativo ou ofensivo?
Silvia Pliz: Não. Pobre gosta de procriar. Não é fato? O que dói no leitor é a verdade. Pobre gosta de procriar, você concorda comigo? Eles têm mais filhos do que deveriam ter.
BBC Brasil: Você convive com pobres em que situações da sua vida?
Silvia Pliz: Eu convivo com pobre como qualquer pessoa da classe média.
BBC Brasil: Por exemplo?
Silvia Pliz: Deixa eu pensar com que pobres eu convivo (pausa). Que pergunta mais estranha. Eu convivo com… Essa resposta é f*da porque ela pode me sujar, digamos assim, né? Eu convivo com pobres que são professores, bailarinos, músicos, empregadas domésticas, porteiros de prédio, motoristas de ônibus.
BBC Brasil: Você diz que as pessoas não entenderam a graça do seu texto. Qual é a graça dele?
Silvia Pliz: Eu acho superengraçado. Acho que humor não se explica. A graça do texto são os detalhes.
Essa fascinação pelos exames acontece. As pessoas, porque têm plano de saúde, ficam contentes e ávidas por fazerem exames. É uma brincadeira que fiz com uma coisa complicada que é doença. Talvez tenha sido aí o ponto de explosão do texto. A graça é a mudança de comportamento da sociedade com relação às novidades. Como na aviação. Há anos, só as pessoas que tinham dinheiro podiam viajar. Agora temos passagens a preços acessíveis e isso gera situações cômicas.
BBC Brasil: Você falou sobre o dicionário. Muita gente apontou um erro seu: a palavra “exige” escrita com “J”, que depois foi corrigida. Também achou engraçado?
Silvia Pliz: Achei (silêncio). Inclusive teve um cara que me chamou de Caco Antibes e quando eu fiz a correção eu disse: ‘Magda fez a correção’. Mas isso precisa aparecer na entrevista?
BBC Brasil: Foi só uma pergunta.
Silvia Pliz: Porque eu acho que isso me ridiculariza.
BBC Brasil: Gostaria de deixar alguma mensagem aos leitores ou não leitores?
Silvia Pliz: Não. Só acho que as pessoas deveriam de repente serem menos ofensivas, tomarem muito cuidado.
BBC Brasil: Você pretende tomar cuidado em ser menos ofensiva em seus próximos textos?
Silvia Pliz: Não. Eu não sou ofensiva. Eles veem como ofensivo. Eu sou divertida nos meus textos. Eu nunca fui ameaçada, foi a primeira vez. Fui ameaçada de morte nos comentários.
BBC Brasil: Fará algo em relação a isso?
Silvia Pliz: Acho que não vai ser necessário. Foram ameaças infundadas, imbecis, nada disso vai acontecer. É a liberdade do Facebook, aquela coisa que começa a pegar fogo, vai crescendo, as pessoas confundem tudo. As pessoas estão muito apavoradas e agressivas demais. É incoerente: defensivo e agressivo.
Me chamaram de nazista. Isso é ignorância. Por favor. A única coisa que gostaria muito que você dissesse é: em tempos em que estamos defendendo tanto a liberdade de imprensa, um texto tolo, não tolo, simples, bobo, como um capítulo de uma novela da rede Globo ter uma repercussão dessa…. sabe?
Terra, via BBC Brasil
Fonte: Blog do BG
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