29 de out. de 2018 - Por dinarte
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por Dinarte Assunção
Os dados são até recentes. A primeira pesquisa é de 2014. Promovida pelo instituto Perseu Abramo. A pergunta foi objetiva e indagou os brasileiros se eles têm preconceito racial e 97% disseram que não.
Por extenso, noventa e sete por cento.
No ano passado, o Ibope, a pedido da Skol, entrevistou 2.002 pessoas sobre o tema. De cada dez brasileiros, dois assumiram seu racismo diante de pergunta objetiva. Na sequência, o entrevistador indagava se as pessoas que negaram ser racistas já tinham empregado frases como “Mulher tem de se dar ao respeito”, “não sou preconceituoso, tenho até um amigo negro” e “pode ser gay, mas não precisa beijar em público” e 73% admitiram o espírito preconceituoso que tentaram esconder.
Em ambas as pesquisas, não há margem de erro estatístico.
Mas há uma enorme margem de erro moral.
Lembrei-me das duas pesquisas ao ver as fotos do filho de Sabrina Flor fantasiado de escravo para uma festa de Halloween.
Seguem-se às imagens, a legenda de Sabrina sobre a foto do filho, qual seja, a de “abrasileirar” o Halloween. Abaixo das fotos, comentários à perfeição da fantasia.
As imagens me causaram repugnância e me preparei para me unir ao coro que faz Sabrina sangrar em praça pública.
Então, me perguntei: por quê? Pra quê?
Sabrina é parte da amostra da pesquisa que não reconhece o comportamento que expôs como racismo.
E não se combate uma coisa dessas se ela não vier à luz.
Não se trata de patrulha ideológica. A razão pela qual a escravidão acabou no Brasil é porque a marcha do progresso é fatalidade à qual todos estão destinados, ficando para trás aqueles que resistirem.
Cada tempo tem seu próprio conceito do que é tolerável. Assim como um dia foi aceitável o chicote nas costas de um negro, hoje isso não só é inaceitável como também o é o resgate a esse tempo do Brasil em tom festivo.
Não houve festa para quem apanhou.
Não há o que comemorar. Mas há o que expor.
Há, pelo menos, 73% de sabrinas no Brasil. E se não as trouxermos à luz, se as deixarmos escondidas dentro de nós, elas jamais poderão ser transformadas para a tolerância.
Sabrina Flor expor os seus deslizes causa revolta porque, sem dúvida há defesa social nas críticas que lhe são feitas, mas também há uma reação virulenta promovida pela tentativa de negar a sombra que mantemos em nós.
Há cinismo em meio à justiça nas críticas a ela.
Essa não é uma constatação minha, mas um dado estatístico como está aí em cima.
Por isso, a sabrina que mora em mim saúda e pede que venha à luz a sabrina que mora em você.
Fica mais fácil deixar a tolerância chegar se admitirmos os preconceitos que temos. Adiantem-se aqueles que puderem fazer.
Ou esperem ser traídos por si mesmos, supondo não haver nada demais em colocar suas sombras no Instagram.
Fonte: Blog do BG
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